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CASAS DA FICÇÃO
Por Camila de Sousa
Introdução
A dada altura, na introdução de “O local da Cultura” (1994), Homi Bhabha faz uma análise do romance “Beloved” de Toni Morrison (primeira escritora negra a receber o prémio Nobel da literatura em 1933) que é simplesmente de tirar o fôlego. Bom, ele vai primeiro dizer que o “estranhamento” é uma condição do pós-colonial. É no momento do estranhamento em que se dá a articulação entre a experiência pessoal, íntima e psíquica, com aquelas da experiência política. Junto com o estranhamento, se dá o deslocamento de categorias tais como passado/presente, casa/mundo. Aqui, suas fronteira se misturam, se confundem e ambos, passado e presente, casa e mundo, passam a fazer parte um do outro.
Mas é a metáfora da casa que mais me intriga. Aquilo a que Bhabha chama de “as casas da ficção, onde decorrem eventos mundiais”. Ao comentar a obra de Morrison, ele diz, “O que é mais obscuro [em Beloved] - e mais pertinente - é como um desejo tão íntimo e interior pode fornecer uma paisagem interior da memória da escravidão”.
É na casa destas mulheres do número 124 da Bluestone Road, na casa de Sethe, que esse mundo estranho acontece, onde a escravidão e a resistência á ela acontecem de forma plena, sem muitas explicações, bem ali debaixo de suas peles escuras.
Bom, tudo isto para falar um pouco sobre algumas fotografias que fiz no bairro da Mafalala em Maputo. A metáfora da casa para pensarmos em eventos não apenas mundiais, como também locais, parece-me ótima para pensar a Mafalala, as suas casas de zinco e os eventos históricos que nelas decorreram e que ainda decorrem. Sabemos que nestas casas foram tecidos de forma íntima e secreta - como deve ser numa casa, abafado o grito - os sonhos de liberdade de Craveirinha e de Noémia e de tantos outros… Talvez, a sensação de estranhamento que senti tenha a ver também com o facto de ter tido a sensação, enquanto fotografava, de ouvir esse grito abafado por entre as paredes das casas de zinco da Mafalala. Grito abafado das gerações passadas, grito abafado dos vários anônimos que agora habitam essas casas. Mas existe algo que vai além de um romântico sentimento de nostalgia. Estas casas são energia viva e pulsam nervosas enquanto narram as suas histórias, quem sabe, estranhas também… |
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