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A Cuba dos meus sonhos não foi aquela que conheci há quase três anos, quando tive a oportunidade, juntamente com minha irmã, de permanecer durante uma semana na capital da ilha caribenha, Havana. Como todo bom jovem universitário trazia comigo um ideal revolucionário de construir uma sociedade mais justa, isenta das iniqüidades sociais e econômicas. O ideal marxista pulsava no meu âmago de tal maneira que preconcebia uma Cuba “onírica”, “politicamente correta”, sem as mazelas que assolavam o mundo capitalista-ocidental, sem o hiato social que domina o meu país, Brasil, e a cidade onde particularmente vivo ,o Rio de Janeiro. Enquanto idéia, Cuba era para mim quase que uma imagem platônica da sociedade comunista, e Havana, uma cidade que certamente Karl Marx gostaria de viver. Entretanto, a viagem me descortinaria algumas surpresas. Não que o marxismo, depois do itinerário, tornou-se para mim uma balela anacrônica, e ipso facto, deveria ser descartado. Marx, na verdade, está mais vivo do que nunca. O marxismo nunca foi tão contemporâneo, vide a vitória dos partidos de esquerda em quase toda a América do Sul nas últimas eleições presidenciais. Não que minha utopia destoasse da realidade empírica a qual me dirigia. Mais do que isto. Por detrás dos discursos duradouros e às vezes enfadonhos de Fidel, do heroísmo de José Marti e a memória atual de Ernesto Che Guevara, havia uma Cuba densamente bela, redundante em todos os seus aspectos, seja o político, religioso, econômico, histórico e étnico.
Havana, por exemplo, mostrou-se, na ocasião, uma das cidades de maior contingente negro que já conheci. Uma espécie de Salvador caribenha. E, se de fato, estava na América, a impressão era de que estava em pleno solo africano. Pois a “África” que se desvelava era absoluta, tanto na mentalidade quanto nos gestos, tanto na alma quanto no corpo dos cubanos. Lembro-me, até hoje, com certa nostalgia da sensação de prazer e temor que experimentei diante das imagens da santería (religião afro-cubana) e da “rumba” – dança quase-religiosa, cuja contribuição africana me parecia inegável -. Sendo ioruba (lucumi) a etnia africana preponderante em Cuba, pude observar muitas alusões feitas aos mais variados orixás, Xangô, Oxum, Obaluaê, Oxalá, etc - que lá são grafados originalmente, respeitando a escrita iorubana -. Mormente Xangô, cujas cores, vermelho e branco, e Obuluaê, “o médico dos pobres”, eram divindades bastante queridas. Ora tal predileção, talvez esteja associada importância simbólica dada ao vermelho (a “cor da revolução”) e a medicina, tão avançada no país. Meras conjecturas. Seja como for, os orixás não se restringiam a certos “guetos” étnicos. Ao contrário, tinham lugar no cotidiano do cubano, abençoando as suas vidas, atendendo as suas urgências mais imediatas, ora num âmbito privado (nas suas residências) ora em atos públicos (festejos e ritos religiosos). Tudo isto me intrigava demasiado. Pois sendo o Estado cubano ostensivamente rígido, dotado de um aparato burocrático rigoroso – o que não excluía certos avanços sociais em vários setores da vida pública, como a educação, o esporte e a saúde -, as tradições africanas pulsavam impudicamente.
Como se a Cuba que conheci estivesse concomitantemente “fora” e “dentro” da modernidade. Sendo, a um só tempo “real” e “sonhada”. Paradoxo inerente dos viajantes de carteirinha, na medida em que toda viagem é feita antes mesmo de se chegar a um destino desejado. Isto é, os países e as cidades, de um modo geral, são primeiramente sonhados, e só depois vivenciados. Marionete deste cruel paradoxo, a meio caminho do sonho e da realidade, fui à África sem sair da América.
por: Leonardo David da Silva Luiz
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