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É
inevitável refletir e pensar sobre o dia 13 de maio de
1888, sem salientar os eventos históricos a ele articulados.
A abolição da escravatura promulgada no final do
século XIX pela Princesa Isabel hoje, nome de um tradicional
bairro carioca, Vila Isabel, e diversas ruas que se alastram pelo
nosso país-, filha de D.Pedro II, teve como artifício
de conceder a liberdade ao escravo solapar e minar as antigas
estruturas sociais e econômicas caracterizadas pela hierarquia,
basicamente feudal e aristocrata (um "Ancien Regime"
à brasileira). Numa só palavra, buscou implantar
no Brasil, idéias inspiradas numa ideologia liberal, que
na conjuntura histórica em questão, já dominava
a vida política da Europa ocidental, onde a classe burguesa
já era hegemônica, soberana.Os reis e a fidalguia
européia agora, dominados por uma burguesia industrial
e financista, deveriam submeter-se aos interesses do capital.Um
enredo que sepulta os privilégios e traz a tono o credo
igualitário.
A era das Revoluções(menção ao livro
de Hobsbown) que trouxe ao mundo ocidental mudanças sociais
e culturais profundas, repercutiu, obviamente na vida pública
brasileira, induzindo nossas classes dirigentes a se adequar à
nova ordem internacional.Quer dizer que a Revolução
Francesa, a Revolução Industrial e a Independência
dos EUA, processos sociais eminentemente burgueses repercutiram
incisivamente em nosso itinerário histórico.Então,
além dos eventos históricos internacionais intercederem
na Abolição do escravismo no Brasil, não
podemos atribuir o ato "humanitário" de libertação
dos escravos à Princesa Isabel, corriqueiramente, cunhada
redentora dos pretos, mas ao capitalismo industrial que emergia
e ganhava corpo, a sua faceta humana e universalista a la "Liberté,
Igualité, Fraternité" da economia política
burguesa.Será ele mesmo tão humanitário como
os seus proponentes supunham naquela era??
Nesse dia 13 de Maio de 2005, o dia da Abolição,
predispus-me a questionar, a fim de descobrir o sentido latente
do discurso anti-racista liberal. Escrevi este artigo preocupado,
basicamente, com duas indagações: Será que
a Abolição toca no problema do negro escravo frontalmente,
no racismo propriamente dito?Ou, ao contrário, tem em vista
atender as demandas econômicas de uma burguesia branca,
por sinal?Se conseguirmos responder a segunda questão estaremos
mais próximos da verdade.
A liberdade cívica tão almejada pelos nossos ancestrais
africanos foi presidida e norteada por uma elite branca do século
XIX.O negro africano não foi sujeito de seus interesses
políticos e sociais, por outro lado, foi um objeto passivamente
submetido aos interesses econômicos e políticos de
uma elite embranquecida.A partir daí, a condição
humana do negro no Brasil, nunca foi discutida, ou muito menos
debatida, já que ele não participou de seu processo
de emancipação.Eis por que, boa parcela da população
negra se encontra nos quilombos pós-modernos, as favelas,
os guetos sul-americanos.Será o fim de um regime escravocrata?E
a isonomia racial, atingimos este patamar?
Por isso, que ao invés de comemorar o dia da Abolição,
no último país a por fim no escravismo, num país
que se julga anti-racista e liberal, mas que no fundo não
é. É preferível consagrar todas as solenidades
ao dia 20 de Novembro, neste sim, pois vale a pena pensar num
sujeito negro, partícipe de sua liberdade e emancipação
políticas.
Zumbi, sim! Princesa Isabel, não! Pelo amor de Zambi.
Axé a todos.
Efun-Oguedê. É a confirmação que
eu fiz. De que um povo é feito planta. Tem que ter sua
raiz(Nei Lopes).
Mini-Glossário:
Axé: energia anônima que se fixa em todas as coisas
do cosmo( planta, alimentos, homem,etc).Força viva e poderosa
que move o mundo.Acredito ser um termo lingüístico
iorubá.
Zambi: O Deus Supremo (ver no glossário banto contido no
cd Celebração: Nei Lopes-60 anos, do grande Nei
Lopes).
Fonte:
Leonardo David da Silva Luiz