Um
cadinho de positivismo, republicanismo, modernismo e racismo.
Eis a emergência do Rio moderno. A reurbanização
da cidade do Rio de janeiro (projeto faraônico que deu simetria
as ruas do centro da cidade, fez implodir o Morro do Castelo,
aterrar a praia do Flamengo, enfim, de criar toda uma estrutura
urbanística para a construção dos túneis
que ligam a Zona Norte e a Zona Sul) se deu sob a égide
de um consórcio entre o racionalismo europeu e práticas
políticas pouco igualitárias, no final do século
XIX e início do século XX.
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É verdade que, historicamente, a eclosão do Rio
enquanto cidade (no sentido estrito do termo) remonta à
conturbada chegada da família real portuguesa no Brasil,
e as suas ulteriores reformas políticas e administrativas
que vieram culminar em importantes obras (como Jardim Botânico,
Museu Nacional, Quinta da Boa Vista) do paisagismo urbano mundial.
Apesar de não negar a relevância deste acontecimento
histórico. Sem querer ignorar suas conseqüências
para a geografia e a topografia atual da cidade bem como para
sua posição política e cultural no Brasil,
como um todo. Parece-me irresistível não fazer alusão
a um segundo momento histórico não menos crucial
-, qual seja, a reestruturação urbana encabeçada
pelo plano arquitetônico do Senhor Pereira Passos (prefeito
carioca da época).
Desde o início, a colônia de São Sebastião
do Rio de Janeiro despertou o interesse econômico da Coroa
portuguesa. E como, na época, a economia era definida pelo
capitalismo mercantil, a ordem era fazer lucro sejam quais fossem
os meios necessários. O tráfico negreiro assume
um papel de relevo nesta conjuntura. Comprar (ou roubar) escravos
na África e trazê-los para as Américas tropicais
era uma prática das mais rentáveis. E é preciso
ressaltar que, além da rentabilidade, a vida nas colônias
lusitanas tornava-se cada vez mais dependente do braço
do homem e da mulher africana, tanto nas lavouras quanto nos serviços
domésticos.
O que explica a presença maciça de negros e mulatos
nas poucas cidades do Brasil colonial. A população
escrava constituindo a maioria, ultrapassando em muito o contingente
de nobres e administradores reais. O mesmo acontecendo no Império.
Grosso modo, o Rio sempre foi uma cidade mais africana do que
qualquer outra, talvez só perdendo para a capital baiana,
Salvador.
Assim, em certo sentido, no Rio, o negro era absoluto. Nas ruas,
no comércio, nos sobrados e nos mocambos, como escravo
ou alforriado, fazendo pequenos biscates, carregando aristocratas
para lá e para cá, fazendo comensais e lavando roupas.
Enfim, o escravo africano era a essência da cidade carioca,
seu braço e sua perna.
Com a derrocada da Colônia e do Império, com o fim
do escravismo, surge a República com sua esperança
e promessas de dias melhores. Entretanto, sai de cena o escravo
para aparecer o trabalhador assalariado, igualmente, espoliado.
Ou seja, justamente, por não ter participado do seu próprio
processo de emancipação o negro livre carecia dos
mesmos direitos do que o negro escravo. Aliás, a espoliação
e a exclusão não só aumentaram, mas também
ganharam novas feições e novos aliados. Os racismos
científico e político atingem, aqui, o seu apogeu.
A República brasileira, obviamente inspirada por ideais
liberais e democráticos, preocupada em modernizar os diversos
setores da sociedade e da vida econômica, acabou por dar
legitimidade a outras formas de desigualdade. Pois se a dominação
do branco sobre o negro, no passado colonial e imperial, era evidente,
ela só adquiriu um viés racista bem recentemente.
O meu argumento é o de que foi a modernidade que trouxe
o racismo (propriamente dito) para o mundo. A própria idéia
de raça sendo muito recente.
O Brasil, sendo reconhecidamente um país
mulato, não se isentou. Ao contrário, muito de nossas
ciências (a antropologia, a medicina psiquiátrica,
a criminalística, a biologia, a jurisprudência),
algumas obras literárias e o jornalismo nasceram justamente
com esta proposta de resolver o problema do negro e dos males
trazidos pela miscigenação. Diz-se que a imigração
européia, que institui o trabalho assalariado no Brasil,
estava atrelada a uma política eugênica (de branqueamento)
que procurava evitar o aspecto degradante do sangue negro.
Sabemos que tudo isto, veio a culminar, alguns anos depois no
nazi-fascismo alemão. Sabe-se também que tal discussão
elucida de que maneira nossas autoridades policiais lidam com
a população negra, e associação recorrente
que ela faz entre negro e ladrão. No entanto, o nosso
escopo é outro. E embora tenha a ver com tudo o que se
discutiu acima, deve-se atentar estritamente para o cunho racista
da política de reurbanização da cidade do
Rio de Janeiro no alvorecer do Brasil republicano, e da relação
estabelecida entre ciência e política, entre saber
e poder, no projeto urbanístico de Pereira Passos. E é
importante sublinhar, sobretudo para aqueles que costumam separar
política e conhecimento, aqui, saber e poder jogam no mesmo
time.
Com o afã de modernizar (entende-se, europeizar) o Rio
de Janeiro, Passos tencionava fazer uma reforma suntuosa tendo
como modelo a cidade de Paris. O Rio, a partir daí, deveria
ser a Paris dos trópicos (apesar das diferenças
climáticas). E, de certa forma, ele consegui. Contando
evidentemente com a subvenção não apenas
de arquitetos modernistas, mas também de toda a intelligentsia
(intelectualidade) cariocae de especialistas de vários
ramos da ciência da época. O Projeto, descaradamente
racionalista e modernizante, buscava repelir tudo aquilo que lhe
aparecia como obstáculo, ou ainda, tudo aquilo que se colocava
com tradicional, folclórico, emocional e exótico.
Se o Rio moderno queria ser uma Paris, o Brasil republicano queria
ser como os Estados-modernos da Europa e da América do
Norte. O progresso devendo chegar através de uma guerra
declarada contra os nossos maiores vícios.
Ora, é fácil perceber que tudo aquilo que remetia
ao negro era percebido como vício, no sentido de algo que
socialmente perigoso e retrógrado. Fazia parte do Projeto,
uma repressão rigorosa contra o candomblé, o samba,
a capoeira. E não é só isso, todo o processo
de reurbanização do centro da cidade foi feito em
detrimento da população negra que habitava os cortiços
e mocambos da região que ficou conhecida como Pequena África
(área que abrange os bairros cariocas da Praça XI,
Santo Cristo, Gamboa, etc). Só restava ao negro livre que
não fazendo parte das pretensões urbanísticas
de Passos teve que ocupar os lugares mais inóspitos, os
espaços mais ermos da cidade. Deslocou-se para os subúrbios
e os morros, erguendo ali suas moradias.
O Rio moderno que inicialmente vinha para libertar o escravo africano,
substituindo o Império pela República, acabou por
animar o processo de favelização que é, atualmente,
tema de grande controvérsia nacional. A cidade que deveria
ser o lócus privilegiado da cidadania não foi garantidora
de nenhum direito cívico (no qual a moradia está
incluso). Sem ser cidadão, o negro subiu o morro, mas manteve-se
às margens da vida pública, sendo percebido como
um “estorvo” pelos agentes da elite intelectual e
política deste país.
Fonte
Leonardo David da Silva Luiz