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Raça Negra e Hipertensão Arterial no Brasil

     
   


Por Dr. Sérgio Francisco Luiz

            A Hipertensão Arterial representa um fator de risco independente para Doença Cardiovascular de custos médicos e sócio-econômicos elevados decorrentes de complicações como: Doença Cérebrovascular, Doença Arterial Coronariana, Insuficiência Cardíaca, Insuficiência Renal Crônica e Doença Arterial Obstrutiva Periférica.
            Segundo dados do Estudo Corações do Brasil, a porcentagem de sujeitos hipertensos (PA > 140/90 mmHg)  é maior na  população negra, abrangendo 34,8 % dos participantes da pesquisa. Entre os Pardos/ Mulatos (as) a porcentagem é de 26,3%, Brancos 29,4 %, Indígenas 11,1 % e Amarelos 10%. O Estudo demonstra ainda que homens e mulheres negros apresentam taxas de hipertensão de duas à quatro vezes maiores do que as encontradas em homens e mulheres brancos, além de possuírem um alto grau de lesão em orgãos-alvo-coração, cérebro e rins o que possibilita a ocorrência de maiores complicações nesse quadro clínico, como: Insuficiência Cardíaca, Doença Renal, Acidente Vascular Encefálico Fatal e Não Fatal.

Algumas possíveis explicações para a prevalência da Hipertensão Arterial na população negra são as seguintes:

  • Os negros apresentam maior incidência de baixo peso ao nascerem;

  • Experienciam uma menor queda de pressão arterial durante o sono;

  • Possuem maior grau de hipertrofia do ventrículo esquerdo;

  • Em razão de muitos enquadrarem-se num nível sócio-econômico baixo, o acesso à serviços adequados de saúde encontra-se prejudicado, o que pode gerar uma série de complicações desde o diagnóstico ao tratamento;

  • Encontram-se expostos em maior grau às situações de estresse psicossocial;

  • Apresentam maior prevalência de obesidade;

  • São mais sensíveis ao sal;

  • Entre outros.


Uma outra explicação intrigante de cunho histórico especula que a maior incidência de hipertensos na população negra pode ser também justificada como uma decorrência dos tempos da escravidão. Nessa linha de raciocínio, o legado desse período não se restringiria apenas ao campo sócio-histórico-político-econômico-cultural-subjetivo, mas seria ampliado ao campo genético.

A taxa de mortalidade dos africanos escravizados durante a viagem girava em torno dos 30%. As diferentes causas abrangiam o suicídio e diversos tipos de infecções. No entanto, as causas de morte mais recorrentes eram Desidratação e Doenças Diarréicas. O que se infere é que a grande maioria dos sobreviventes possuía uma capacidade maior de retenção de sal (cloreto de sódio) e justamente por isso, demonstravam uma maior resistência às anormalidades eletrolíticas letais.  Dessa maneira, o menor teor de sal no suor refletia a probabilidade do negro escravizado de sobreviver à viagem.


Em contrapartida, um estudo realizado com remanescentes de quilombos (Kalunga) no norte de Goiás em 1992 revelou que mesmo em grupos raciais com pré-disposição para Hipertensão quando há uma baixa ingestão de sal, atividade física constante, taxas reduzidas de obesidade e uma organização social pouco competitiva, os índices de hipertensão arterial são ínfimos e não se elevam significativamente com a idade; um forte indicativo de que em contextos que proporcionam uma menor exposição à fatores de risco, os níveis de incidência de hipertensão em negros são drasticamente reduzidos.
            No cenário da saúde no Brasil aproximadamente 30% dos óbitos são decorrentes de Doenças Cardiovasculares, sendo que o Acidente Vascular Cerebral (AVC) é a principal causa mortis. A Hipertensão Arterial está por trás de 40% dos óbitos por AVC, bem como de 25% dos Infartos Agudos do Miocárdio.  O maior nível de incidência de Hipertensão Arterial em negros nos leva a concluir que a condição de saúde destes encontra-se consideravelmente mais vulnerável do que os demais no que diz respeito ao acometimento por Doenças Cardiovasculares.
            Após constatar essa desconcertante realidade que deteriora a saúde dos negros, só me resta concluir que da retirada forçada da África, aos 300 anos de escravidão e aos outros 120 anos de ‘libertação’, o que nos espera é uma maca sem lençol em algum corredor de hospital do SUS.

Fonte: Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia
            Atlas Corações do Brasil

 

Colaboração: Daniela da Silva Luiz

   


 
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